sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

"Ditabrandas"

Não se pode exigir de nenhum jornal do mundo imparcialidade. Mas certas coisas têm limite. Uma amiga me mandou um e-mail relatando uma reportagem da Folha de São Paulo que fala sobre as reeleições infinitas de Cháves. A reportagem é totalmente ridícula ao afirmar expressamente que o regime instaurado no Brasil de 64 a 85 teria sido na verdade uma "ditabranda", e não uma ditadura. Esse editor só pode estar brincando com a memória dos brasileiros. Afirmar que não houve ditadura é o mesmo que afirmar que não houve holocausto. É tudo tão evidente que só uma pessoa mal intencionada pode afirmar isso. Ele deveria responder por algum tipo de crime pro afirmar uma besteira dessa magnitude. Ainda mais a Folha ofendeu publicamente dois professores que criticaram a reportagem acusando-os de cínicos e mentirosos. Estamos vivendo uma época perigosa. Discordar da direita cada vez mais poderosa pode voltar a gerar perseguição. Quem sabe um dia não me perseguiriam por este texto que agora escrevo... Bem, precisava deixar essa reflexão antes que curtamos o nosso carnaval alienante e maravilhoso.
Folha:
"Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso".
FÁBIO KONDER COMPARATO:
"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana." *professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)

Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.

16 comentários:

Mário disse...

Penso que a questão aqui não é "imparcialidade" e vejo um erro tremendo quando o blogueiro aponta que a "direita" está cada vez mais poderosa na mídia. Acho estarrecedor falar isso num país que tem uma mídia dominada há décadas pelo viés esquerdista e coletivista, e onde os articulistas de "direita" resumem-se a Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho.

Voltando à questão principal, penso que a ditadura brasileira foi um mal, mas um mal que foi gestado, parido e nutrido por outro ainda pior: o comunismo. Tanto é assim que o artigo de hoje de Fernando Barros e Silva na Folha destaca que "se é verdade que o aparelho repressivo brasileiro produziu menos vítimas do que o chileno ou o argentino, isso se deu porque a esquerda armada daqui era menos organizada e foi mais facilmente dizimada, não porque nossos militares tenham sido "brandos"." Olha aí, isso é verdade mesmo, os militares não foram brandos, mas o artigo revela um outro lado da história que a maioria gosta de distorcer: a esquerda estava interessada em "cubanizar" o Brasil, lutava por uma ditadura comunista, mas são tidos como "heróis democráticos", como gente que lutou por uma redemocratização, o que não é verdade. Lutavam para derrubar uma ditadura de direita para por uma de esquerda no lugar, dando mais motivos para que o regime ditatorial se estendesse no Brasil.

Para as pessoas comuns, não envolvidas com a política, a ditadura realmente não trouxe grandes consequências, mas o mesmo não pode ser dito dos russos, cubanos, chineses, cambojanos e outros povos que sofreram o diabo sob o tacão comunista.

O artigo de Fernando Barros, que contesta o editoral da Folha, é lúcido, equilibrado e desperta para o fato de que toda ditadura é sim, execrável, independente de quem matou mais. Mas, Barros esquece de descrever qual era o quadro reinante no Brasil em 64, esquece de dizer que o comunismo realmente era um ameaça à democracia, embora lembre que Fábio Comparato e outros intelectuais de esquerda só condenam as ditaduras que não se dizem "igualitárias", ou seja, quando é ditadura comunista, "bolivariana" eles aplaudem.

As ditaduras chilena, argentina e brasileira se deram em um momento específico da história desses países, em plena guerra fria e onde os horrores da cortina de ferro já eram do conhecimento de todos. Ao contrário, a esquerda comunista via a ditadura do proletariado como um bem, algo necessário e inevitável. Não se deve pois escamotear tais coisas, sem as quais não é possível ter uma avaliação correta dos acontecimentos. Segue o artigo:

Ditadura, por favor
CERTAMENTE não é a primeira vez que um colunista da casa diverge de uma posição expressa pelo jornal em editorial.
Mas é a primeira vez que este colunista se sente compelido a tornar pública sua discordância, inclusive em nome do que aprendeu durante 20 anos nesta Folha.
O mundo mudou um bocado, mas "ditabranda" é demais.
O argumento de que, comparada a outras instaladas na América Latina, a ditadura brasileira apresentou "níveis baixos de violência política e institucional" parece servir, hoje, para atenuar a percepção dos danos daquele regime de exceção, e não para compreendê-lo melhor.
O que pretende ser um avanço analítico parece, mais do que um erro, um sintoma de regressão.
Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante. Devemos agora contar cadáveres para medir níveis de afabilidade ou criar algum ranking entre regimes bárbaros?
Por essa lógica, chega-se à conclusão absurda de que o holocausto nazista não passou de um "genolight" perto do extermínio de 20 milhões promovido por Stálin.
Ora, se é verdade que o aparelho repressivo brasileiro produziu menos vítimas do que o chileno ou o argentino, isso se deu porque a esquerda armada daqui era menos organizada e foi mais facilmente dizimada, não porque nossos militares tenham sido "brandos".
Quando a tortura se transforma em política de Estado, como de fato ocorreu após o AI-5, o que se tem é a "ditadura escancarada", para falar como Elio Gaspari. Seria um equívoco de mau gosto associar qualquer tipo de "brandura" até mesmo ao que Gaspari chamou de "ditadura envergonhada", quando o regime, entre 64 e 68, ainda convivia com clarões de liberdade, circunscritos à cultura.
Brandos ou duros, o fato é que os regimes autoritários só mobilizam a indignação de grande parte da esquerda quando não vêm acompanhados da retórica igualitarista.
Muitos intelectuais se assanham agora com a tirania por etapas que Chávez vai impondo à Venezuela sob a gosma ideológica da revolução bolivariana. Isso para não lembrar o fascínio que o regime moribundo mas terrível de Fidel Castro ainda exerce sobre figurões e figurinhas da esquerda nativa.
É bem sintomático, aliás, que, ao protestar contra a "ditabranda" em carta à Folha, o professor Fábio Konder Comparato, guardião do "devido respeito à pessoa humana", tenha condenado os autores do neologismo a ficar "de joelhos em praça pública" para "pedir perdão ao povo brasileiro".
Que coisa. Era assim, obrigando suas vítimas a ajoelhar em praça pública, submetendo-as à autêntica "tortura chinesa", que a polícia política maoísta punia desvios ideológicos durante a Revolução Cultural. Quem sabe, como a "ditabranda", seja só um palpite infeliz.
Fernando de Barros e Silva (Folha de São Paulo, 24/02/09)

Elaine Pimentel disse...

Caro Basile,

Mesmo jornais respeitáveis podem propagar grandes absurdos. A Folha, aos poucos, se aproxima da Veja, uma das revistas mais desprezíveis do Brasil, responsável pela distorção de debates muito interessantes, a exemplo do manifesto do ator Pedro Cardoso sobre a nudez. Nós, leitores, devemos ficar atentos a certas afirmações "non sense" que formam opinião e distorcem fatos históricos que deixaram fortes marcas na memória social. Negar a ditatura militar ou minimizar seus efeitos é uma forma de legitimar certas expressões de poder ainda presentes, por exemplo, na nossa Polícia Militar. Embora a divisão "direita X esquerda" já esteja um tanto diluída na política atual, sobretudo com a tal "governabilidade", é preciso compreender que há algo na essência política de cada uma delas que mantém intactas suas ideologias. No entanto, combater as esquerdas e o "comunismo" virou hobby de alguns, resistentes a qualquer tipo de reflexão mais aberta. A ditadura é culpa da esquerda?! Vou ficando por aqui...
Lucidez é para poucos, como você. Um abraço!

Mário disse...

Há, nestes ardorosos críticos da ditura brasileira, nestes intelectuais "humanistas" do tipo Fábio Konder, o hábito de valer-se de dois pesos, duas medidas quando a questão é avaliar a legitimidade de governos e regimes e julgar suas ações. A Folha está corretíssima em apontar o cinismo deste e de outros. As coisas têm de ser chamada pelo nome, principalmente quando se trata de uma atitude hipócrita de um notório defensor de ditaduras (desde que de esquerda, claro). Pouco impota que Mao tenha matado 70 milhões na China, o que não faltava até pouco tempo atrás era professor universitário se dizendo "maoísta".

Aqueles "humanistas" que pegaram em armas para roubar, sequestrar e matar durante a ditadura são tidos como heróis democráticos, mas o seu desejo era implantar uma ditadura comunista por aqui. Acaso estou mentindo ou distorcendo os fatos quando falao isso? Por que Zé Dirceu, um daqueles "humanistas democráticos" ainda hoje verte lágrimas quando se encontra com Fidel, um ditador? Por que Oscar Niemeyer tem espaço na Folha de São Paulo para tecer loas a Stalin e mentir a respeito do livro de Simon Montefiore sem que nenhum desses Comparatos fique indignado?

(http://mariotblog.blogspot.com/2009/01/mentira-como-filosofia-de-vida.html)

Por que a tão célere extradição dos boxeadores cubanos e a concessão de asilo a um criminoso como Cesare Battisti apesar de todos os pareceres em contrário? Ah, por falar nisso, sabe o que estão fazendo os "humanistas" do Tortura Nunca Mais? Estão a defender Cesare Battisti, criando o movimento "Fica Battisti". Battisti pode ser um assassino, ladrão e estuprador, mas é "dos nossos", é "de esquerda", é "comunista", então Battisti é gente boa! E os "Comparatos" e os "Sader", o que acham disso? "Ah, tudo isso é difamação daquela 'revista desprezível', a Veja". É deve ser mesmo um complô da Veja com a justiça italiana, e o Tortura Nunca Mais, por ser "de esquerda", "do bem", obviamente, está corretíssimo ao defender um gangster.

Mas, façamos uma análise da ficha criminal de Cesare, o bom:

"Há uma ficha detalhada da polícia italiana de um jovem cidadão nascido em Cisterna Latina, região do Lazio, em 1954. Aos 18 anos, a 13 de março de 1972, Cesare é preso pela primeira vez por furto agravado. Dois anos depois, a 19 de junho, preso novamente por lesões pessoais agravadas. Preso ainda a 2 de agosto de 1974, por rapina agravada e sequestro de pessoa. Denunciado a 25 de outubro do mesmo ano por desfrutamento de incapaz (por debilidade mental ou menoridade) para a prática de atos libidinosos. Preso em Udine, norte da Península, em 1977, por rapina. Admitamos, não é uma ficha enaltecedora do caráter e das tendências de qualquer um."

Essa ficha retrata só início das "aventuras de Cesare, o bom". Seria mais uma atitude desprezível daquela revista desprezível? Não, essa ficha desprezível, foi publicada pelo "desprezível" Mino Carta, na sua "desprezível" Carta Capital, tida pelos "humanistas", pelos poucos "lúcidos", pelos "esclarecidos", como exemplo de jornalismo e de isenção. As informações constantes aqui diferem daquelas da Veja, "a deprezível"? Diferem das da justiça italiana? Diferem das informações veiculadas pela imprensa italiana? Mas alguns têm por hobby, desconfiar de tudo que sai na "desprezível".

Cadê os Sader, os Comparatos, as Benevides e as Chauís quando se trata de condenar os crimes de Fidel, do PT e dos líderes comunistas do leste europeu?

Há dois pesos e duas medidas para esses hipócritas e falsos defensores da liberdade.Dois pesos e duas medidas que só se justificam pelo viés ideológico que orienta suas vidas e suas atitudes. Ideologia que não preciso dizer qual é e que faz de todos eles hipócritas.

ceciliaufal disse...

Intelectuais lançam manifesto em repúdio à 'Folha'
Um grupo de intelectuais lançou, neste sábado (21), um abaixo-assinado na internet (ipetitions) em repúdio à Folha de S.Paulo. O manifesto protesta contra um editorial publicado quatro dias antes pelo jornal, que fez tábula rasa das atrocidades da ditadura militar (1964-1985) e classificou o período como "ditabranda".
http://www.ivanvalente.com.br/CN02/noticias/nots_07_det.asp?id=2103

Mário disse...

As lúcidas considerações do "desprezível" Reinaldo:

A DITADURA DOS BRANDOS DE ARAQUE
No dia 17 de fevereiro, a Folha de S. Paulo fez um editorial em que chamava o regime militar brasileiro (1964-1985) de “ditabranda”. O trocadilho óbvio era com “ditadura”. Os trocadilhos, quase sempre, servem à galhofa. Raramente se está diante de um achado que realmente valha o vexame de substituir a expressão séria do pensamento por um jogo de palavras. Assim, se existe algo de errado com o emprego de tal palavra no texto da Folha, ele se restringe, entendo, a essa questão de gosto. Que o regime militar brasileiro foi mesmo “brando” se comparado a congêneres latino-americanos, disso não resta a menor dúvida. Os números o comprovam à farta. Eu mesmo já os listei aqui tantas vezes. E voltarei a eles mais adiante. Então por que tanta gritaria, liderada pelos petistas Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, como se a Folha tivesse feito a defesa da ditadura, o que é mentira? Responderei aqui a esta questão. Antes, sinto-me obrigado a corrigir duas inverdades que estão presentes no editorial, escritas sob medida, parece-me, para adular as esquerdas. Ninguém está proibido de adular esquerdistas, é claro (eu acho que sempre é um risco, mas cada um na sua). Mas que sejam afagados com verdades.

O editorial em que se emprega a palavra “ditabranda” censura o modelo de Chávez na Venezuela e aponta a escalada do coronel rumo à ditadura. No esforço de dar uma no cravo e outra na ferradura – uma das marcas que costumo criticar nos editoriais do jornal – escreve-se:
Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.
Está errado. Acusa-se Fujimori de ser uma espécie de precursor do modelo chavista, o que é besteira. A acusação livra as costas das esquerdas, já que ele era tido como um político de “direita” – e a “direita” seria, então, a responsável por essa onda neoditatorial no continente. E por que é besteira? Porque o então presidente do Peru pautou toda a sua ação pela luta contra o terrorismo do Sendero Luminoso – o que fez dentro e fora da lei -, optando por um estado policialesco, que tinha o apoio de parcelas da classe média. Fujimori governou com leis de exceção – sem nem mesmo a preocupação de mimetizar o jogo democrático – e não investiu no arranca-rabo de classes, a exemplo do que fazem Chávez, Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia) e, em breve, Fernando Lugo (Paraguai). A ditadura de Fujimori não era distinta das ditaduras militares latino-americanas, com a diferença de que havia um civil na chefia do estado.

O modelo chavista, seguido por outros parceiros da América Latina, é de outra natureza. Se as ditaduras militares, digamos, clássicas propunham trocar democracia por segurança, essas de agora propõem trocar democracia por benefícios sociais – remetendo ao velho mantra do socialismo. Na impossibilidade de se chegar ao poder pela via armada, recorreu-se a outra matriz teórica da própria esquerda: empregar os instrumentos da democracia para solapá-la. Esse movimento tem até um espaço de debates e articulação das diferenças: o Foro de São Paulo, que o próprio Lula não cansa de exaltar, mas que a imprensa, Folha inclusive, parece considerar uma fantasia “desse pessoal da direita”...

Observo que, no próprio jornal, alguns articulistas já exaltaram o apego de Chávez à democracia. Uma das fãs do coronel é Eliane Cantanhede. Há dias, ela elogiou o comportamento do governo Obama, que parabenizou o bandoleiro pela conquista “democrática”. No lugar de Hillary Hillary Clinton, escreveu a jornalista, Condoleezza Rice teria dito que só eleição não basta para caracterizar democracia. Pergunto: basta? Pelo visto, para a escrevinhadora, sim. Aliás, a palavra “ditabranda” deve ter excitado alguns dos instintos mais primitivos da redação...

O segundo erro do editorial, também na linha de fazer concessões à esquerda, está aqui: “A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu caminho para a marcha autoritária (...)”.
Quer dizer, então, que, não fosse aquele movimento oposicionista, Chávez teria feito outra escolha? É uma bobagem que se comprova pelos fatos. Quando o coronel começou a recorrer a eleições para solapar a democracia, não tinha havido golpe nenhum. Pergunto: o modelo chavista comporta a convivência com adversários e alternância de poder? ELE PRÓPRIO JÁ DISSE QUE NÃO. ELE PRÓPRIO AFIRMOU QUE A DERROTA DO GOVERNO NO REFERENDO SIGNIFICARIA UM CONFRONTO COM A REVOLUÇÃO BOLIVARIANA E QUE ISSO ERA INACEITÁVEL.

Assim, a oposição não “abriu caminho para a marcha autoritária” coisa nenhuma! Os veículos de comunicação operariam já uma pequena revolução se perdessem o receio de opinar com clareza, fugindo ao estilo nem-nem. Será que é preciso bater na oposição venezuelana para que fique claro o perfil ditatorial de Chávez? Mas entendo. Certo articulismo, na Folha e quase em toda parte, ainda não consegue criticar o governo Lula sem largar o braço também nos tucanos. Longe de provar “independência”, isso prova o contrário: QUEM PRECISA PROVAR PARA ESQUERDISTAS QUE É INDEPENDENTE JÁ SE TORNOU DEPENDENTE... DOS ESQUERDISTAS. Sigo adiante.

A reação
A reação de alguns medalhões da esquerda à palavra “ditabranda” é risível. À frente, como quase sempre, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato, este um fã declarado de plebiscitos e referendos – instrumentos que a esquerda elegeu para descaracterizar a democracia.

O termo “ditabranda”, um trocadilho meio boboca, nem é novo. Sei lá se tem autoria, mas já era bastante empregado por setores da própria esquerda na década de 80. O governo Figueiredo, em especial, era chamado de “ditabranda” – aliás, estava mais pra uma esculhambação autoritária. O padrão de comparação era qual? Qualquer outra ditadura latino-americana. Os militares argentinos mataram 30 mil pessoas. Se o Brasil tivesse seguido aquele padrão, os mortos aqui teriam sido 150 mil! Fidel Castro, o maior assassino em massa do continente, responde por 100 mil vítimas. Na ditadura brasileira, morreram 424! Se fizermos as contas por 100 mil habitantes, Fidel é 2.700 vezes mais assassino do que o regime brasileiro. E, no entanto, qual é o tratamento que as esquerdas brasileiras dispensam ao Coma Andante? No dia 26 de novembro de 2006, tratei deste assunto no blog (uma das vezes, entre muitas). Leiam (em azul):

Certos raciocínios são mesmo inaceitáveis. Perguntam-me, em vocabulário impublicável, de onde tirei os números sobre os mortos da ditadura no Brasil. Pois não. Do livro Dos Filhos Deste Solo, escrito pelo ex-ministro Nilmário Miranda, petista, e pelo jornalista Carlos Tibúrcio. Aliás, é uma co-edição da Boitempo Editorial (aquela do caso Emir Sader) e da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT. Logo, senhores esquerdistas, a fonte é a melhor possível para vocês. Reitero o que já havia escrito: não deveria ter morrido uma só pessoa sob a guarda do Estado. Mas é uma estupidez e uma fraude querer comparar o que se deu no Brasil com o que aconteceu na Argentina ou na Cuba de Fidel Castro — por que não?Para ser preciso, o livro lista, com enorme boa vontade nos critérios, 424 casos de pessoas que teriam morrido ou que ainda são dadas como desaparecidas em razão do regime militar — ainda que numa razão nem sempre direta. Estão contados aí pessoas vítimas de acidentes, suicídios, gente que morreu no exterior e até os justiçamentos: esquerdistas assassinados por esquerdistas porque supostos traidores. Sim, meus caros: a esquerda nunca viu mal nenhum em aplicar a pena de morte. Sem tribunal ou direito de defesa.Desses 424 — logo, bem menos do que os 500 que eu mesmo mencionei porque estava com preguiça de ir à fonte —, assassinados mesmo, comprovadamente, foram 293 pessoas. Mas atenção: isso inclui as que morreram na guerrilha do Araguaia: gente que estava armada, para matar ou morrer. Dá para saber até a distribuição dos mortos segundo as tendências:

ALN-Molipo – 72 mortes (inclui quatro justiçamentos)
PC do B – 68 (58 no Araguaia)
PCB – 38
VPR – 37
VAR-Palmares – 17
PCBR – 16
MR-8 – 15
MNR – 10
AP – 10
POLOP – 7
Port - 3

É muito? Digo com a maior tranqüilidade que a morte de qualquer homem me diminui, segundo frase famosa que já é um chavão. Mas 424 casos não são 30 mil — ou 150 mil, se fôssemos ficar nos padrões argentinos. Isso indica o óbvio: a tortura e a morte de presos políticos no Brasil eram exceções, embora execráveis, e não a regra. Regra ela foi no Chile, na Argentina, em Cuba (ainda é), na China (ainda é), no Caboja, na Coréia do Norte, na União Soviética, nas ditaduras comunistas africanas, européias… Só a ALN-Molipo deu cabo de quatro de seus militantes. Em nome do novo humanismo…

A lei de reparação que está em curso no Brasil é das mais generosas, tanto é que alcança até alguns vagabundos que fizeram dela uma profissão, um meio de vida, arrancando dos pobres e dos desdentados indenizações milionárias e pensões nababescas. Até aí, vai uma sem-vergonhice que não ameaça criar tensões desnecessárias.

Querer, no entanto, rever a Lei da Anistia como se o drama dos mortos e desaparecidos fosse um trauma na sociedade brasileira como ainda é na argentina ou na chilena é um completo despropósito. Pode, quando muito, responder ao espírito de vingança de alguns e gerar intranqüilidade para o resto da sociedade, a esmagadora maioria.

De resto, tão triste — ou até mais — do que a tortura com pedigree, aquela exercida contra militantes de esquerda no passado, é a que existe ainda hoje nos presídios brasileiros. Imaginem se cada preso comum acionar o Estado por conta de maus-tratos ilegais sofridos cotidianamente nas cadeias. Ocorre que essa gente não conta com a disposição militante para fazer proselitismo. Não existe uma comissão especial para cuidar do assunto. A esquerda, como sempre, só dá pelota para o “seu povo”, não para “o” povo.
Volto
Atenção: entre militares e civis mortos em decorrência da ação dos grupos de esquerda armados no Brasil, morreram quase 200 pessoas. Isto mesmo: meia-dúzia de radicais mataram quase a metade do que matou o "terrível" estado ditatorial brasileiro. Não! Isso não redime os que agiram nas sombras. Mas dá conta de como eram suaves aqueles esquerdopatas, não é?

E por que Benevides e Comparato gritam? Porque são profissionais da causa e precisam alimentar aquela indústria de produzir reparações e ideologia regressiva. Eles precisam de um passado mítico, com uma terrível “direita” assassina, pronta a massacrar aqueles pobres anjos democratas, para que as ações presentes do PT (e até a deles próprios) se justifique. Afinal, o petismo, que ainda não conseguiu ser assim um chavismo, não chega ao ponto de nos propor que troquemos democracia por justiça social... A turma está quase lá. Em nome de sua suposta justiça social, eles só esperam que a sociedade tolere as suas lambanças. O PT tem a ambição de cobrar por aquilo a que temos direito de graça: democracia e estado de direito. Se alguém resiste a pagar, então o partido acena com “controles” – e uma de suas ambições sempre foi controlar o que chama de “mídia”. Era esse o intento do Conselho Federal de Jornalismo e da Lula News, aquela estrovenga que Franklin Martins inventou e que ninguém vê.

Talvez a palavra “ditabranda”, em outro veículo, não tivesse gerado tanto escarcéu. Ocorre que os Comparatos e as Marias Victorias consideram a Folha um jornal sob a esfera de influência de seus soldados. Então eles logo gritam para corrigir o “desvio”. Se não podem controlar a “mídia”, por enquanto, por meio de instrumentos de estado, tentam fazê-lo por intermédio do alarido, da intimidação intelectual.
Ai, ai... Vamos ver quem vai puxar o abaixo-assinado. Não é possível! Já deve haver, a esta altura, uma abaixo-assinado... Esses descoupados históricos adoram assinar um manifesto. Do ponto de vista moral, eles o fazem com o polegar - se é que vocês me entendem.

Fonte: Blog do Reinaldo Azevedo.

Mário disse...

Olhem só como a esquerda e o PT são "bonzinhos", "humanitários", "verdadeiros" (não distorcem os fatos) e como o Foro de São Paulo é inócuo.

http://www.youtube.com/watch?v=VNPjm0qfByc

Mário disse...

Agora, se o blogueiro e demais leitores acham que a análise de Reinaldo Azevedo é incorreta, que apontem os erros, por favor.

Mário disse...

O link remete a um vídeo de divulgação do 3º congresso do PT, realizado em 2007, que mostra que o comunismo não é delírio de "direitista" nem seu combate é hobby. Numa sociedade democrática, todos têm direito a liberdade de expressão. Vejo o comunismo como um erro tremendo, uma ideologia a ser combatida por meio das evidências históricas e pela demonstração de suas falácias. Para quem acha que isso e paranóia, que se trata de uma ideologia morta, é só conferir o que o PT diz de si mesmo no vídeo do congresso nacional do partido em 2007.

Basile disse...

Acredito que um dos maiores defeitos de uma discussão seja a perda do foco. A discussão aqui não é, ou não deveria ser, se o comunismo é uma coisa boa ou ruim. O que se está aqui a criticar é o fato de que o maior jornal do país classificou como brando o pior período por qual passamos, em termos de violência e de corrupção do sistema. Basta ter em mente que antes da ditadura o Brasil era um país com um sistema de educação próximo ao descente e que ao fim dela tínhamos o caos total, assim como no sistema de saúde pública. Esse regime ditatorial instalado no país perseguiu pessoas que pensavam diferente delas. Basta dizer que o poeta Vinícius de Moraes foi expulso do corpo diplomático mesmo tendo sido um dos maiores poetas, senão o maior daquela época. Enfim, a violência cultural talvez tenha sido maior do que a física. Hoje somos mais ignorantes, mais estúpidos e incultos justamente por termos vivido tempos tão difíceis e alienantes. Não apoio qualquer tipo de ditadura, seja de esquerda ou de direita. Mas acredito a direita por natureza possui conceitos mais egoístas. E certamente a direita não se resume a esses 3 articulistas citados, basta citar a própria Folha como um jornal de direita, a Veja e tantas outras. Enfim, não quero fugir do tema como anunciei anteriormente. Quero apenas dizer que não se pode justificar uma ditadura porque havia um "risco" de se ter uma ditadura esquerdista no Brasil. É como se eu matasse o boi com medo que outros o matassem primeiro. A perda da liberdade não pode ser calculada dessa forma. E se a esquerda era tão pequena e desarticulada no Brasil, porque o uso da violência? Era realmente necessária para deter o comunismo? Não importa o número de mortos, mas se o sistema como instituição está disposto a matar quem quer que seja ou não.

Abraços a todos e obrigado por comentarem o meu texto.

Mário disse...

Falar em direita, esquerda e comunismo, não é perda de foco. Como o blogueiro bem salientou, ao dizer que A Folha é um jornal de direita. (um jornal de direita que publica texto de Marcelo Coelho, Frei Betto, Toni Negri, Niemeyer...). E número de mortos é claro que é importante, e o fato do jornalista Fernando Barros e Silva ter apontado para o fato de que a esquerda armada foi derrotada por sua desorganização não implica dizer que a ditadura foi algo bom, mas é óbvio que esse regime foi mais brando do que as ditaduras chilena e argentina e incomparável em termos de horrores às ditaduras de esquerda. O problema consiste justamente no fato de que esses que ficaram horrorizados com o termo "ditabranda", aplaudem um ditador como Fidel Castro como um herói humanista. Portanto, longe de ser desvio de foco, é importante citar isso para comprovar que não se bate em determinadas ditaduras, mesmo quando estas foram muito mais sanguinárias do que a brasileira.

Dizer que a educação soçobra no Brasil por causa dos milicos, penso, é mais um erro de avaliação do blogueiro. Sou professor e conheço de perto a realidade da educação brasileira, e nunca ela apresentou um nível tão baixo como depois da redemocratização. Não foi a falta de liberdade de expressão que nos levou ao caos Aqueles educadores outrora perseguidos, inclusive, voltaram com a carga toda e suas ideologias (nem falo em idéias) tomaram conta da universidade, onde, aliás, nunca deixaram de estar presentes, mesmo durante a ditadura (vide Paulo Freire, por exemplo).

A reação ao perigo comunista não justifica nada, prezado blogueiro, mas explica muita coisa. É indispensável entender qual o quadro reinante na época. Não se quer com isso endossar uma ditadura, mas entender as condições que a tornaram possível. E quando analisamos o que foram essas duas décadas de governo autoritário, comparando com a ferocidade das ditaduras comunistas - e destacando que também houve perseguiçaõ política destituída de cunho ideologico, afinal, Carlos Lacerda, por exemplo, não era exatamente um esquerdista - que não fazem distinçaõ entre suas vítimas, é óbvio que não dá para comparar a repressão reinante no Brasil daquela época com a que reina até hoje em Cuba.

Se a ditadura brasileira, que vitimou 424 pessoas, fosse responsável pela derrocada da educação, como se explica que o Chile seja hoje um exemplo em termos de educação, desenvolvimento humano e econômico apesar do regime brutal de Pinochet ter ceifado 3000 vidas? Isso justifica os crimes de Pinochet? De modo algum, mas o problema, Basile, é que Konder e Benevides aplaudem o regime cubano que, a despeito de ter perseguido e massacrado o próprio povo, converteu a ilha num museu vivo da década de 60! É essa exaltação dessa e de outras ditaduras que torna ridículo seus protestos e abaixo-assinados, motivados mais por paixão ideológica do que por autêntica preocupação com a liberdade e a democracia. É por isso que ao fazer referência ao discurso ideológico por trás dessas manifestações - inclusive recorrendo a fatos e exemplos concretos - não é jamais perder o foco da questão. Assim, houve exagero nas reações ao editorial da Folha, exagero motivado pela mitologia das esquerdas, a qual nunca se penitencia por seus crimes, mas não perde a oportunidade de posar como redentora do gênero humano. E já que estamos falando de foco, reitero que seria muito útil a esse debate contestar o que vai na análise de Reinaldo Azevedo, por exemplo. Porque senão ficará a impressão de que nem ele, nem a revista para qual ele escreve são tão desprezíveis assim.

Basile disse...

Em primeiro lugar, se o termo ditabranda pode ser aplicado a regimes que pouco mataram proporcionalmente, nada melhor do que aplicá-lo ao regime de Hugo na Venezuela. Certamente matou menos do que o brasileiro. Eu condeno justamente o fato, seja de uma ditadura de esquerda ou direita de impor um pensamento e uma postura frente as outras, além de todas as formas de violência.

Com relação as afirmações do jornalista que você citou e pretende ver confrontado, seleciono uma frase a ser combatida:

"Que o regime militar brasileiro foi mesmo “brando” se comparado a congêneres latino-americanos, disso não resta a menor dúvida."

Vejamos, com base em que se pode afirmar que um regime é brando frente aos outros? É absurdo crer que um regime foi leve pelo número de mortos vinculados a partidos políticos. E quanto as torturas? Dominações nos campos culturais? Perseguições a políticos? Extinções de partidos e uniteralização de tudo quanto é possível dentro do pais? Tudo isso é violência...

ceciliaufal disse...

Não vejo nada de cínico em apoiar uma ditadura de esquerda e condenar uma de direita. É tudo uma questão de ideologia mesmo e projeto para o futuro.
Ora, ambas podem matar (afinal, guerra é guerra), mas uma para manter a segregação e outra para inclusão social. Não se pode achar que é a mesma coisa.
Como eu disse, é questão de ideologia. E nem importa se eu concordo com uma ou com outra...

Mário disse...

Estarrecedor (e revelador) o comentário da Cecília. Talvez fruto de uma mente jovem que ainda não teve tempo e nem angariou experiência para refletir com mais cuidado sobre a questão. Creio que ninguém aqui se colocou a favor de ditadura alguma. Mas, como disse, espantoso esse comentário, o que demonstra desconhecimento da história e dos fatos por parte da comentarista. No entanto, penso, que só um ambiente onde os fatos são distorcidos poderia produzir essa visão da banalidade do assassínio. Coisas da pouca idade, creio, que ainda não atinou para a seriedade e a realidade do tema, limitando-se a abstrações do tipo "inclusão social". Prezada Cecília, não a conheço, mas tomo a liberdade de recomendar-lhe que não se deixe guiar por chavões e por belas palavras. Quem te levou a crer que é admissível matar por "inclusão social"? Essa mentalidade doentia foi responsável por milhões de mortos no século XX. Procure conhecer a realidade do stalinismo, do maoísmo, das atrocidades do Khmer vermelho. Veja as fotos, informe-se sobre a grande fome na Ucrânia que vitimou 7 milhões de pessoas. Verifique se você já viu algo semelhante acontecer por aqui no nosso país, apesar de todas as nossas mazelas. Dizer que é lícito apoiar ditaduras assassinas por conta de ideologia é um absurdo. Caso não tenha percebido, faz de você cúmplice de genocídio e do sofrimento de milhões. A única inclusão social feita por esses regimes foi a inclusão numa cova rasa com um tiro na nuca, de forma indistinta e sistemática (inclusive eliminando companheiros de revolução). Pondere sobre o que disse. Segue uma historinha que talvez lhe ensine algo:

"Encontrei Tar na saída da conferência sobre o diálogo. Ele tem o ar reticente, e no entanto o mesmo olhar de amizade que tinha quando o recrutei aos grupos do Combat.

- Você agora é marxista?

- Sim

- Então será um assassino.

- Já o fui.

- Eu também. Mas não quero mais.

- E você foi meu padrinho.

Era verdade.

- Ouça Tar. O problema verdadeiro é o seguinte: aconteça o que acontecer, sempre o defenderei contra fuzis de execução. Mas você será obrigado a aprovar que me fuzilem. Reflita sobre isso.

- Refletirei."

Albert Camus, caderno de notas (29/10/1946)

Mário disse...

Basile, podemos sim dizer que uma ditadura foi mais branda do que outra. E óbvio que o regime de Chavez - que por sinal foi o tema do editorial da Folha - ruma para uma ditadura. Ele é um ditador em gestação. E não podemos prever quais as consequências de um Chavez com poder total. O regime do bufão de Caracas só não é mais autoritário e arbitrário porque ainda resiste algum resquício de democracia na Venezuela, mas não porque este é o desejo do "comandante". Permita-me fazer-lhe algumas perguntas para, a título de reflexão, sua e dos comentaristas. Você conhece alguma pessoa que foi indenizada em Cuba por ter sido vítima de violência e perseguição da parte do Estado? Conhece algum chinês na mesma situação? Algum russo? Já viu algum ditador comunista ser julgado (com exceção de Ceauscescu)? Acaso a imprensa (cada vez mais direitista, de acordo com você) deu algum destaque para o julgamento iniciado semana passada do facínora que foi diretor da prisão S21 durante o regime do Khmer vermelho? Você já ouviu falar nisso? Se o regime foi tão brutal assim, como é que tantos escaparam, gozam de polpudas idenizações e hoje são os que mandam no país? Você já ouviu falar em Diógenes José Carvalho de Oliveira? Era um terrorista da VPR que em 68 arrancou a perna do senhor Orlando Lovecchio em um atentado. O terrorista Diógenes que está vivinho da silva e goza de boa saúde recebeu do governo uma indeninzação de 400 mil reais, além de pensão vitalícia de 1600 reais. Jà o senhor Orlando Lovecchio, a vítima, recebe R$ 517,00 de pensão. Taí o exemplo da "justiça social" desses heróis democráticos. Ah, as informações são do Elio Gaspari, colunista da Folha (Gaspari é direitista também?). Você acha que não há nenhum interesse em pintar a ditadura brasileira como a mais terrível de todas por parte do pessoal da indústria das indenizações? Que me diz de Ziraldo, Jaguar e Carlos Heitor Cony terem ficado milionários por conta dessas indenizações? Não estariam, conforme Millor Fernandes, fazendo um investimento em vez de lutar por democracia? (Millor também é direitista?)

"Ah, mas houve mortes e tortura na ditadura". Sim, houve, não estou negando, nem defendendo o regime. Mas é preciso mostrar os fatos como eles se deram, mostrar o contexto. A morte de Wladmir Herzog, por exemplo, foi uma barbaridade, um ato covarde, sujo e indefensável. Mas veja só que coisa, Basile, o martírio de Herzog acelerou o processo de democratização no país. Você conhece algum caso em que uma morte tenha influenciado a derrocada de um regime ditatorial de esquerda? Não sei se você viu o mais recente documentário sobre a morte de Wladmir Herzog. Nele há depoimentos dos colegas que foram presos com ele. Entre estes, estava o Paulo Markun, jornalista da tv cultura. Sobre a morte de Herzog, Markun diz que foi consequência da briga do então presidente Ernesto Geisel com os militares linha-dura que não queriam o fim do regime. Usando as palavras de Markun: "quando dois elefantes brigam, quem sofre é a grama". Por que cito esse episódio? Ora, para que se entenda o contexto e os fatos. Tinha-se um presidente ditador (Geisel) que estava encaminhando o país para a redemocratização, e tinha um comandante que, agindo à revelia do regime, perpetrou um crime bárbaro e covarde. Sim, o fato do país estar sob um regime de exceção posssibilitou esse tipo de coisa, mas o importante é que se perceba que, nessa época, diferente de regimes outros que são aplaudidos (e tidos como modelo) pelos hoje indenizados, tais práticas não se constituíam nuam sistemática de terror e, nesse caso específico, contrariava a diretriz seguida pelo mandatário da vez. Há particularidades sobre a ditadura brasileira que têm de ser colocadas, e a grita em torno de um termo, solto num editorial cujo tema era Hugo Chavez, é sem dúvida exagerada, principalmente porque advinda de notórios defensores de regimes opressores que sistematicamente eliminavam (e eliminam) o próprio povo, sem nenhum respeito pela liberdade e democracia.

Mário disse...

Artigo do professor Marco Antonio Villa sobre o regime militar brasileiro e suas peculiaridades, quando comparado às outras ditaduras do Cone Sul. O artigo foi publicado hoje na Folha e traz informações que derrubam certas "certezas" a respeito do regime propagandeadas nas nossas universidades por professores militantes e pouco afeitos ao estudo e a pesquisa, "certezas" e "verdades" que se difundiram no pensamento geral. O artigo de Villa é tudo o que se deve esperar de um professor de história que realmente conhece seu objeto de estudo, no caso, o período militar brasileiro, e o descreve sem a influência de paixões ideológicas nem interesse em polpudas indenizações.

Ditadura à brasileira
MARCO ANTONIO VILLA


--------------------------------------------------------------------------------
É rotineira a associação do regime militar brasileiro com as ditaduras do Cone Sul (Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai). Nada mais falso
--------------------------------------------------------------------------------



É ROTINEIRA a associação do regime militar brasileiro com as ditaduras do Cone Sul (Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai). Nada mais falso. O regime militar brasileiro teve características próprias, independentes até da Guerra Fria.
Fez parte de uma tradição anti- democrática solidamente enraizada e que nasceu com o positivismo, no final do Império. O desprezo pela democracia foi um espectro que rondou o nosso país durante cem anos de república. Tanto os setores conservadores como os chamados progressistas transformaram a democracia em um obstáculo à solução dos grandes problemas nacionais, especialmente nos momentos de crise política.
O regime militar brasileiro não foi uma ditadura de 21 anos. Não é possível chamar de ditadura o período 1964-1968 (até o AI-5), com toda a movimentação político-cultural. Muito menos os anos 1979-1985, com a aprovação da Lei de Anistia e as eleições para os governos estaduais em 1982. Mas as diferenças são maiores.
Enquanto a ditadura argentina fechou cursos universitários, no Brasil ocorreu justamente o contrário. Houve uma expansão do ensino público de terceiro grau por meio das universidades federais, sem esquecer várias universidades públicas estaduais que foram criadas no período, como a Unicamp e a Unesp, em São Paulo.
Ocorreu enorme expansão na pós-graduação por meio da ação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), especialmente, e da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), em São Paulo. Ou seja, os governos militares incentivaram a formação de quadros científicos em todas as áreas do conhecimento concedendo bolsas de estudos no Brasil e no exterior. As ditaduras do Cone Sul agiram dessa forma?
A Embrafilme -que teve importante papel no desenvolvimento do cinema nacional- foi criada no auge do regime militar, em 1969. Financiou a fundo perdido centenas de filmes, inclusive de obras críticas ao governo (o ministro Celso Amorim presidiu a Embrafilme durante o regime militar). A Funarte foi criada em 1975 -quem pode negar sua importância no desenvolvimento da música, das artes plásticas e do teatro brasileiros? E seus projetos de grande êxito, como o Pixinguinha, criado em 1977, para difundir a música nacional?
No Brasil, naquele período, circularam jornais independentes -da imprensa alternativa- com críticas ao regime (evidentemente, não deve ser esquecida a ação nefasta da censura contra esses periódicos). Isso ocorreu no Chile de Pinochet? E os festivais de música popular e as canções-protesto? Na Argentina de Videla esse fato se repetiu? E o teatro de protesto? A ditadura argentina privatizou e desindustrializou a economia. Quem não se recorda do ministro Martinez de Hoz? Já o regime militar brasileiro estatizou grande parte da economia.
Somente o presidente Ernesto Geisel criou mais de uma centena de estatais. Os governos militares industrializaram o país, modernizaram a infraestrutura, romperam os pontos de estrangulamento e criaram as condições para o salto recente do Brasil, como por meio das descobertas da Petrobras nas bacias de Santos e de Campos nos anos 1970.
É sabido que o crescimento econômico foi feito sem critérios, concentrou renda, criou privilégios nas empresas estatais (que foram denunciados, ainda em 1976, nas célebres reportagens de Ricardo Kotscho sobre as mordomias) e estabeleceu uma relação nociva com as empreiteiras de obras públicas. Porém, é inegável que se enfrentaram e se venceram vários desafios econômicos e sociais. É curioso o processo de alguns intelectuais de tentarem representar o papel de justiceiros do regime militar. Acaba sendo uma ópera-bufa. Estranhamente, omitiram-se quando colegas foram aposentados compulsoriamente pelo AI-5, como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Emilia Viotti da Costa, entre outros; ou quando colegas foram presos e condenados pela "Justiça Militar", como Caio Prado Júnior.
Muitos fizeram carreira acadêmica aproveitando-se desse vazio e "resistiram" silenciosamente. A história do regime militar ainda está presa numa armadilha. De um lado, pelos seus adversários. Alguns auferem altos dividendos por meio de generosas aposentadorias e necessitam reforçar o caráter retrógrado e repressivo do regime, como meio de justificar as benesses. De outro, por civis (estes, esquecidos nas polêmicas e que alçaram altos voos com a redemocratização) e militares que participaram da repressão e que necessitam ampliar a ação opositora -especialmente dos grupos de luta armada- como justificativa às graves violações dos direitos humanos.

MARCO ANTONIO VILLA, 52, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e autor, entre outros livros, de "Jango, um Perfil".

Basile disse...

Crescimento econômico e desenvolvimento não é critério para se avaliar a violência de um regime. Além do mais, sabe-se o que gerou esse desenvolvimento: a década perdida de 80...